Este amor

Esperei por ti o tempo suficiente para me irritar de tal maneira que acreditei que quando chegasses eu seria tudo menos doçura. Sabes o quanto odeio esperar. E detesto quando nem sei quanto tempo ainda contar nesta espera.

Quem sabe seja isto uma coisa boa, quem sabe esta irritação te atire para fora do teu espaço. Vou zangar-me e tirar-te do sério, como sempre. Vou perder a paciência e tu vais perder a noção, como sempre. Pode ser que desta vez não acabe tudo bem, como sempre.

Chegas sem nada nas mãos, mas com uma saudade no olhar que me faz chegar ali agora mesmo, tal como tu. Afinal não esperei nada e somos toda a doçura que cabe num abraço apertado.

É um amor que rasga a pele e transforma todas as vontades e teorias. É um amor que só pode ser para sempre. Mesmo que não seja. É um amor que entende, que explica, que é maior.

Mas é um amor que preenche mas que não repousa. De que serve amar assim se em vez de tranquilidade é uma constante tempestade? Compensa deixar a bola de neve crescer quando já se sabe que não há espaço para ela passar, que os braços não chegam para a segurar, que está gelada demais para manter as mãos ao lhe tocar?


É um amor sem fim mas sem meta. E esse não pode ser um amor para sempre. 
“Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio”
Oswaldo Montenegro


Escolho fazer por me compensar do tempo que perdi a amar tudo mais que a mim. E escolho ver o que gosto e mudar o que não gosto, para que seja em mim que encontro o melhor.

Que se lixe o tempo que perdi, e que o dê por ganho, na forma como no final de contas me escolho a mim.

Que se lixe o que doeu, que não fiquei mais forte, que não era preciso. Que se danem as lágrimas e o engolir a seco. Para o cacete com as teorias, as esperanças, as estratégias e as histórias. Tudo o que era mais importante esteve demasiado tempo de lado.

É um caminho diário mas chegou a hora de perceber que o verbo "ser" tem em primeiro lugar o "Eu".